A desigualdade social e os dados da PNAD contínua

O que mais se destaca na PNAD contínua, divulgada em abril de 2018, é o abismo de renda entre os que têm mais e os que têm menos no Brasil. Quase metade da renda está nas mãos dos 10% mais ricos. O crescimento econômico e o controle inflacionário no ano de 2017 não foram suficientes para reduzir as históricas desigualdades sociais no país.

Os dados do IBGE já são ruins, mas provavelmente seriam piores se fossem levados em conta outros fatores, como os rendimentos financeiros. E, embora a renda dos pobres tenha crescido, a dos ricos cresceu na mesma proporção, o que tem perpetuado a desigualdade.

O problema da desigualdade é persistente apesar das políticas públicas pós-redemocratização, iniciadas na década de 1980. Ele se manifesta regionalmente, entre gêneros e na raça. A situação dos estados do norte/nordeste é pior que a do sul/sudeste, as mulheres possuem renda menor e ainda se dedicam mais que os homens às rotinas da casa, o que dificulta a inserção no mercado de trabalho; os pretos e pardos continuam a ganhar menos que os brancos.

Entre as possíveis causas da desigualdade social no Brasil estão a falta de espírito republicano de uma classe política e judiciária patrimonialista, um sistema tributário injusto que penaliza a classe média e os pobres, a discriminação de raça e de gênero, o trabalho subutilizado, a corrupção, o crescimento da informalidade, um ensino público de qualidade questionável, um salário mínimo insuficiente, entre outros.

As soluções, por sua vez, passam pela mobilização popular exigindo reformas política e judiciária, por impostos sobre propriedade, renda e herança, por políticas sociais afirmativas para combater a discriminação de raça e gênero, por políticas públicas para reduzir a pobreza e aumentar a renda e o emprego, pelos investimentos estatais na educação e pela valorização do salário mínimo acima dos índices inflacionários.

Infelizmente, alguns dados da recente PNAD indicam um país que caminha na contramão: altas taxas trabalho subutilizado e desemprego, crescimento da informalidade, diminuição das famílias atendidas pela bolsa família.

Cresce o desalento, afirma o IBGE. É interessante que o termo desalento é utilizado pelo instituto de pesquisa em um sentido restrito para se referir à população que estava fora da força de trabalho por não conseguir trabalho, não ter experiência, ou era muito jovem ou idosa, ou por não ter encontrado trabalho na localidade.

A manutenção da desigualdade social aponta para um risco mais grave de desalento na sociedade brasileira, dessa vez em sentido ampliado: prostração, aflição, desespero, desconfiança, torpor, derrotismo, desconsolo, desesperança. Um desalento que, nos dizeres de Chico Buarque e Vinícius de Moraes, “não tem mais fim” e que poderia levar as pessoas a entregar os pontos. Não ceder ao desalento e ter esperança de um Brasil mais justo é a única alternativa de um país que precisa se reinventar para que seu povo tenha uma vida mais digna.

Foto: Paolo Trabattoni.

Renato Somberg Pfeffer
Doutor em Filosofia
Professor titular do Ibmec-MG