Tesouro Direto pagará R$ 9 bilhões no maior vencimento de títulos da história

O bolso de 122 mil investidores do Tesouro Direto estará mais cheio a partir da próxima quarta-feira. E quando o governo pagará R$ 88 bilhões em títulos federais, sendo R$ 9 bilhões apenas para pessoas físicas. Esse será o maior vencimento já históriado Tesouro, que abriu o mercado de dívida pública para o aplicador comum há 17 anos.

Os títulos com vencimento programado para o investidor foram emitidos em janeiro de 2013 e estiveram à venda no site do Tesouro até fevereiro de 2017. Quem comprou os papéis em seu lançamento e permanecerá com eles até o fim terá a recomposição do que foi perdido com a inflação, acrescido de juros de 8,03% ao ano.

Nas contas do próprio Tesouro, cerca de 70% dos R$ 9 bilhões que serão pagos pelo governo vão apenas “quicar” na conta do poupador para cair de volta em uma nova aplicação. Na opinião de especialistas, os recursos permanecerão em sua maior parte dentro da renda fixa modalidade tida como porto seguro, mesmo com a taxa básica de juros, a Selic, a 6,5% ao ano, seu menor patamar. Por trás dessa projeção de reinvestimento pesam dois fatores: o histórico dos vencimentos do passado, com alta taxa de retomo dos recursos para dentro do mercado financeiro, e o trabalho frenético feito pelos bancos e corretoras de investimento nas últimas semanas. Eles vêm trabalhando há dias para tentar convencer os clientes a não sacarem os recursos, em uma disputa travada nas mesas de operações e pelos gerentes de relacionamento.

Corpo a corpo. No Bradesco, há dois meses o time de vendas recebeu ordens da diretoria para intensificar os contatos com os poupadores listados para receber os recursos do Tesouro. A estratégia é destacar todos os gerentes e especialistas em investimentos para uma “venda” corpo a corpo, que inclui desde contatos pessoais, ligações telefônicas, mensagens de texto e até lembretes via WhatsApp. “Tem sido nosso principal foco no setor, lutar por cada centavo, tanto entre os investidores institucionais quanto pessoas físicas”, afirma o diretor executivo do Bradesco, Leandro Miranda, que tem detalhado o perfil de todos os 122 mil investidores com conta no banco. “Sabemos como eles aplicam e como gostariam de aplicar”, diz. De forma geral, o Bradesco tem aproveitado esse vencimento para apresentar ao cliente os produtos considerados mais “sofisticados” dentro do portfólio da instituição: de novos produtos de renda fixa até os fundos geridos pelo próprio banco. “Nem todo mundo que tem títulos, posições de renda fixa, tem um perfil conservador.

Estamos tentando descobrir o perfil do cliente, se tem familiaridade para assumir um pouco mais de risco”, conta. Já o Banco do Brasil resolveu adiantar o lançamento de dois fundos espelho que investem em cotas de fundos de terceiros de multimercado, para oferecer aos investidores que receberão os recursos do Tesouro na conta. “Esses fundos já estavam programados, mas decidimos antecipar o lançamento”, conta a gerente geral de captação e investimentos do BB, Luciane Effting. Os cinco mil gerentes do banco foram destacados para contatar os investidores. Além disso, o banco aproveita o momento para dar “quilometragem” aos 120 consultores de investimento recém-contratados para os clientes do segmento de varejo. “Aproveitamos os novos funcionários para o projeto de intemalização desses recursos do Tesouro”, conta.

 

Discrição. O advogado Bernardo Pascowitch, do buscador de investimentos Yubb, conta que, apesar do interesse dos bancos, o trabalho tem sido tocado com discrição entre as instituições. Aideia, diz, é não passar a imagem de que os bancos estão empreendendo um grande esforço em tirar o investidor dos títulos públicos. “Até porque, isso causaria um mal-estar com a B3 (bolsa brasileira), que faz a custódia dos títulos.”

Ao mesmo tempo, Pascowitch destaca que também não se observa um grande incentivo para que o investidor conheça, experimente e invista no Tesouro Direto. “Todos estão buscando oferecer produtos que sejam mais lucrativos do que o Tesouro.” Em outubro do ano passado, os bancos até anunciaramtaxa zero para operações do Tesouro, movimento apelidado de “efeito XP”, por seguirum caminho já pavimentado pelas corretoras independentes, que já não cobram essas taxas. Mas isso era para não perder os clientes que estavam no Tesouro.

Neste momento de concorrência pela alta liquidez entre investidores, a briga ganhou novo capítulo. A Necton lançou uma campanha de pagar o primeiro aporte no Tesouro para quem abrir uma conta na corretora. O investimento “brinde” é uma fração de um título público (um décimo), cerca de R$ 30. A Órama e o BTG lançaram um fundo de investimento em Tesouro Selic sem taxa de administração. Com isso, ficou mais barato aportar no fundo do que diretamente no Tesouro, já que diretamente o poupador tem de pagar a taxa de custódia da B3, de 0,25%.

CDB é opção após vencimento do Tesouro, mas risco é maior

Aplícador também não pode sacar dinheiro antes do prazo final do título, que pode chegar a cinco anos.

Por Renato Jakitas

Menos retorno, mais tempo sem o dinheiro e com um pouco mais de risco para o portfólio de investimentos. Os 122 mil poupadores que têm a receber R$ 9 bilhões na próxima quarta-feira, vão se defrontar com um Brasil diferente daquele de seis anos atrás, quando foram lançados essestítulos do Tesouro.

Hoje, com os juros básicos em sua mínima histórica, inflação sob controle na meta do Banco Central e tendênciado mercado de capitais pela renda variável, a prateleira de renda fixa é bem menos generosa com o investidor. Lançados em 2013, com taxa Selic a 7,5% e inflação acumulada de 6,1596 ao ano, os títulos Tesouro IPCA 2019 recompuseram as perdas com inflação e adicionaram um prêmio anual de 8,03%.

Hoje, o mais próximo que o poupador encontra à venda no site do Tesouro são títulos com vencimento em 2024 que, além da recomposição da inflação, garantem margem de lucro de 3,9396 ao ano.

Não adianta reclamar. Na opinião do professor de finanças do Ibmec Alexandre Cabral não adianta reclamar ou esperar por dias melhores para a renda fixa.

Segundo ele, mesmo com rendimento abaixo da metade do oferecido há seis anos, os títulos federais ainda sãoboas opções. “Se o investidor acha que pode precisar desse dinheiro a qualquer momento e quer proteger o montante das perdas com a inflação, o Tesouro é melhor do que a poupança”, afirma Cabral, que sugere apenas uma adaptação ao aplicador. “Compre os títulos à venda, mas dê preferência pelos atrelados à taxa de juros Selic.

Os títulos indexados pelainflação, principalmente os de longo prazo, são mais voláteis e podem variar mais. Se você precisar se desfazer do título antes do vencimento, o risco do Tesouro Selic é menor”, destaca. Segundo as contas de Cabral, quem comprar agora um título de Tesouro Selic, com prêmio de 0,0296 ao ano, terá no fim de um ano um retorno de 5,2496, já descontada a inflação. Assim, quem investir R$ 1 mil na aplicação, verá um saldo de R$ 1.052. Segundo dados do Tesouro Direto, a maior parte dos investidores que receberão os recursos na quarta-feira sacará até R$ 10 mil (52%) e 70% têm entre tem entre 26 e 45 anos.

CDB vale a pena. Para a planejadora financeira Paula Sauer, da Planejar, a melhor opção dentro da renda fixa para quem vai receber os recursos do Tesouro são os contratos de CDBs dos bancos pequenos e médios. Ela destaca títulos (veja no gráfico acima) que podem pagar até 121% do CDI. O CDI é uma taxa que segue de mãos dadas com a Selic e está em 6,40%. Outra opção são os CDBs indexados ao IPCA, indicador oficial para a inflação, acrescidos de taxa de até 5% ao ano.

Segundo Paula, contudo, ao comprar um CDB, o investidor precisa considerar a liquidez. Na prática, o aplicador não pode sacar o dinheiro antes do vencimento do título, que pode ter prazo de um, dois ou até cinco anos. Além disso, é preciso considerar mudanças no cenário econômico, diz Paula. “Se você comprar contratos apostando na alta da inflação e ela cair, você ganha menos.” O segredo, diz, é diversificar. “Tem de buscar ativos com correlação negativa. Assim, quando um cai, o outro sobe.”

 

Fonte: O ESTADO DE S.PAULO/SÃO PAULO | ECONOMIA & NEGÓCIOS