Novas parcerias unem academia e companhias

No fim de março teve início a primeira turma do MBA em projetos digitais na PUC Minas com a participação da Stefanini, multinacional brasileira que auxilia empresas em processos de transformação digital. Trata-se de um curso de 432 horas, que aborda temas como economia criativa, canvas de modelo de negócios, metodologias ágeis, "growth hacking" e monitoramento.

A parceria entre a empresa e a escola surgiu a partir de conexões em comum. "Há profissionais da Stefanini que estudam na PUC Minas e eles conectaram a empresa com o coordenador do MBA", explica Breno Barros, diretor de inovação e negócios digitais da multinacional. "A PUC queria atualizar o curso, trazendo uma visão de mercado e levando especialistas para ministrar algumas disciplinas e propor debates em sala de aula sobre assuntos mais práticos."

Nessa parceria, não há contrapartida financeira, então a Stefanini não recebe dinheiro para participar do programa. O retorno, segundo Barros, vem de outra forma. "É um jeito de a gente contribuir com o ensino e aproximar a empresa de talentos, além de disseminar a marca de inovação empreendedora da Stefanini", afirma o executivo. "É um elo, porque ali há executivos de empresas que são potenciais clientes e alunos que trabalham em clientes atuais, o que reforça o relacionamento."

Esta não é a primeira parceria da Stefanini com uma escola de negócios. A multinacional desenvolveu, no ano passado, uma aproximação com a francesa Insead que culminou no curso Transformação Digital, que terá sua segunda edição em abril na França. Depois de virar estudo de caso no Insead, a Stefanini entrou como parceira da escola francesa fazendo a curadoria de alunos brasileiros com perfil aderente ao curso, que tem quatro dias de duração. O conteúdo do programa e as aulas são de responsabilidade do Insead.

A Stefanini, além de captar alunos e apoiar o processo de seleção, acompanha os executivos na volta para que eles coloquem em prática o que foi visto em sala de aula. Mais uma vez, não há contrapartida financeira. "Entendemos como relacionamento de marketing. É uma forma de estar próximo do mercado", diz Guilherme Stefanini, head de novos negócios da multinacional. Na primeira

edição, o curso teve cerca de 40 participantes. O público-alvo são altos executivos de empresas em processo de transformação digital.

Parcerias entre escolas de negócios e empresas para oferecer cursos abertos têm se tornado cada vez mais comuns. Em 2020, será a vez da Saint Paul Escola de Negócios lançar um curso desenvolvido junto com a IBM. O programa, batizado de Liderando a Reinvenção Digital, foi desenhado porque a escola percebeu que há gestores, diretores e até conselheiros inseguros e confusos em relação ao que está acontecendo com as velozes transformações digitais. "Aplicamos as novas tecnologias da IBM internamente e um mundo se abriu na escola. Vimos, então, uma oportunidade de levar isso para o público externo", explica Adriano Mussa, diretor acadêmico e sócio da Saint Paul Escola de Negócios.

Para desenvolver o programa, profissionais da escola e da multinacional de tecnologia se reúnem periodicamente. "São reuniões intensas de um dia inteiro", detalha Mussa. Ele explica que a IBM entra com o conhecimento em novas tecnologias e a escola aporta sua visão de gestão para organizações exponenciais, além de tópicos novos de administração que conversam com as inovações. "Os professores conseguem ter um bom conhecimento, mas pela velocidade das mudanças tecnológicas acreditamos que uma empresa como a IBM conhece melhor do que ninguém a aplicação prática, e o aluno precisa dessa experiência". As aulas, previstas para começar em fevereiro do ano que vem, serão ministradas por professores da Saint Paul e por profissionais da IBM. Nesse caso, há contrapartida financeira, com divisão de custos e receita.

O Ibmec também lançou, em fevereiro, um curso desenhado em parceria com o portal "InfoMoney", da XP Investimentos. O conteúdo do MBA em Investimentos e Private Banking foi construído em conjunto e tem professores tanto da instituição de ensino quanto do "InfoMoney". Rina Pereira, coordenadora de pós-graduação e extensão do Ibmec SP explica que o curso surgiu após um projeto em comum entre as duas organizações. "Veio à tona uma demanda da XP de formar pessoas para o mercado financeiro", diz. "Existe um 'gap' identificado por muitas empresas de que as pessoas saem dos cursos com bagagem teórica grande e pouca bagagem prática." Ao final do programa existe uma chance real

de os alunos conseguirem um emprego na XP. "Os melhores são avaliados pela empresa", diz Rina.

Em junho próximo mais dois cursos desenvolvidos em parceria com instituições externas entram na grade do Ibmec. Um deles é o MBA em Varejo Digital, desenvolvido com a OasisLab, hub de inovação especializado em varejo, e o outro é um curso de extensão de três meses de empreendedorismo desenhado com o grupo Mulheres do Brasil, liderado por Luiza Helena Trajano.

No ano passado, o Ibmec já havia desenvolvido um curso em parceria com uma empresa externa. É o programa de extensão Introdução ao Mercado Financeiro, criado junto com a B3 Educação, braço educacional da B3, que continua na grade da escola. Em todos os casos, Rina afirma custos e receitas são divididas entre as empresas e a escola.

Em maio é a vez de a Fundação Dom Cabral (FDC) lançar um curso em formato semelhante. É o programa Comitê de Auditoria: Exercendo seu Papel com Eficácia. Com duração de 24 horas, o curso é voltado a profissionais que trabalham ou desejam trabalhar em comitês de auditoria e foi desenhado junto com a KPMG. "Temos relação com a KPMG em outras frentes de mercado e vimos que havia uma oportunidade para desenvolver um curso em função da necessidade de formar comitês de auditoria", explica Susan Paiva, gerente de projetos da FDC.

Susan explica que a KPMG contribui com o conteúdo por sua expertise aplicada no mercado. "Unimos o conhecimento mais conceitual ao aplicado", diz. As aulas são ministradas por professores da FDC e por profissionais da KPMG. No ano passado, em outra parceria, a FDC recorreu à Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) para desenvolver o curso RH Triple A. Voltado para gestores da área de RH, o curso terá novas turmas a partir de julho. "A construção conjunta faz parte do DNA da FDC, e buscamos parceiros quando há necessidade de complementar competências ou quando faz sentido associar a reputação de duas marcas", afirma Susan.

Na PUC do Rio Grande do Sul, o modelo escolhido envolve parceria com empresas, mas em um formato diferente. Para enriquecer seus cursos de MBA, a escola de negócios da PUC-RS passou a contar com um par de professores

em cada disciplina - um deles é docente da escola e o outro é alguém relacionado àquela área que tenha notoriedade, como um executivo ou empresário. "Percebemos que a troca de experiência com profissionais de sucesso era enriquecedora para o processo de aprendizagem dos alunos", explica André Duhá, coordenador dos cursos de especialização e MBA da escola de negócios da PUC-RS.

Nessa linha, o MBA em Administração, Finanças e Geração de Valor, por exemplo, tem entre os professores Camila Farani, investidora-anjo e jurada do programa "Shark Tank", e Rachel Maia, CEO da Lacoste Brasil. Já o MBA Liderança, Inovação e Gestão 3.0 leva para a sala de aula Cristiana Arcangeli, fundadora da Phytoervas, Robinson Shiba, fundador da China in Box, e Marco Aurélio Raymundo, fundador da Mormaii.

Também entram na lista de professores convidados da PUC- RS o filósofo Luiz Felipe Pondé, o historiador Leandro Karnal e a escritora Lya Luft, entre outros. "O convidado geralmente conta seu caso de sucesso e transmite seus ensinamentos, enquanto o professor da PUC relaciona essas informações ao conhecimento teórico, organiza o conteúdo de forma mais didática, faz as avaliações e tira dúvidas dos alunos", diz Duhá. De forma geral, o conteúdo das disciplinas é desenvolvido pela PUC-RS, mas pode haver interferência do professor convidado. "Quando há sugestões, avaliamos e, se forem pertinentes, acatamos."

FONTE: VALOR ECONOMICO