Suje a boca comendo manga

Por Ricardo de Faria Barros

Essa semana tive a oportunidade de conversar com pessoas amigas, sobre as estratégias para o bem-estar emocional que precisamos desenvolver, para uma melhor qualidade de vida psicológica. Com tanta coisa que lhes falava, pediram-me para fazer um texto que as ajudassem.

Disseram-me que são do tipo que ficam "arengando" com a vida. Daquelas que acordam procurando razões para ser infeliz. E que, por pouca coisa, perdem a paz e a alegria durante o dia.

Então, resolvi escrevê-las, e a todos e todas que se identificarem com seus apelos. Por experiência prática, e com base nos meus estudos em Psicologia Positiva e Logoterapia poderia resumir, correndo o risco e tomado pela insanidade de todos os resumos, em três grandes forças motrizes geradoras da energia do bem-estar.

São elas: A dieta emocional; os exercícios comportamentais e o estilo de vida existencial.

Fazendo uma analogia com a busca por um corpo saudável: seria a dieta, os exercícios e a mudança do estilo de vida, o que de fato faz perder peso e evita o efeito sanfona.

1. I Força Motriz - Dieta Positiva Cognitivo-Emocional.

De que tipo de emoções nos alimentamos? O que lemos e o que ouvimos? Que tipo de alimento emocional estamos ingerindo todos os dias? São alimentos saudáveis, ou são venenos emocionais? A primeira força nos ensina que é preciso cuidar com o que deixamos adentrar em nosso ser. Seja pela cultura, pelas amizades, pelo acesso a informações, ou até pela troca diária de conversações.

Se essa dieta é repleta de agressividade, maldade, inveja, rancor, ódio e maledicências, como purificar o existir? Como se sentir, ao final do dia, em paz e com bem-estar crescente? O meio fabrica o Homem, de fuma maneira muito mais primitiva do que a do Homem fabricar o meio. Assim sendo, recomendo que se cuide com o que se consome de emoções nos meios em que habitamos. Não dá para criar uma bolha e ir morar dentro, ou numa ilha deserta. Até arrisco que ali não seríamos felizes. Precisamos de cheiro e toque de gente para nos realizarmos como pessoas. Mas, tem que ter juízo e discernimento para saber quando estamos ficando envenenados, intoxicados pela convivência com gente ruim, desumana e sem nada de positivo.

Gente infeliz, extremamente negativa e crítica, que suga nossas energias. São uma bomba calóricas do mal, para nossa dieta para o otimismo, esperança e visão positiva de si mesmo, da vida e dos outros. Feche as portas do coração a elas. Não se deixe contaminar. Além disso, cuide das calorias do mal que por si próprio, pela sua autonomia de um ser de liberdade faz e consome. Que tal, se levou um fora afetivo, passar menos tempo lendo a cartas dela? Ou ouvindo músicas que remetem à finais de relacionamentos? Que tal uma dieta desse tema? Uma desintoxicação.

Resumindo, a I Força Motriz para o aumento do bem-estar diz respeito ao que consumimos, e ao que exalamos de emoções. Procure as boas, aquelas que agem como os dez antioxidantes da alma, aqueles que rejuvenescem nossa história de vida, tais como: otimismo, paz, espiritualidade, perseverança, ética, adaptabilidade, solidariedade, esperança, gratidão, generosidade e mansidão.

Alimente-se delas e serás muito mais feliz hoje, do que ontem, e assim por diante.

2. II Força Motriz - Exercícios Sócio-Atitudinais

O alcance do bem-estar emocional exige práticas comportamentais e atitudinais, muito mais que bravatas ou belos discursos. Algumas delas dolorosas, pois vão contra hábitos arraigados, e geram resistências internas. Mudar dói e é um tanto arriscoso. Mas garanto-lhes, é muito bom e ainda melhora a cada dia que passa. Se você é do tipo que vive reclamando de tudo, mudar exigirá esforço e atenção redobrada sobre si mesmo, o que chamamos de autoconhecimento. Assim, ao menor sinal de chegar no seu coração aquela reclamação gratuita, por coisa pequena, trivial, poeirinha de estresse turvando sua visão, atue sobre ela. Diminuindo o impacto emocional do negativo no seu dia.

Tem gente que reclama tanto, que mal consegue conviver com os outros, consigo mesmo e com a vida. Tudo lhe está em falta. Tem gente que passa praticando um esporte perigoso: Ninguém Presta. Esse esporte tem seu placar alterado sempre que praticamos o mal: seja em comportamentos seja em atitudes: “remungamentos”, fofocas, invejas, apologias a rede de intrigas e difamações de todos os tipos. Na analogia com a busca por um corpo saudável, esse exercício faz o mesmo efeito do que aquele que respondemos ao nosso médico quando nos pergunta sobre atividades físicas:

“Doutor, no momento só levantamento de chope”.

É, meus amigos e amigas, como querer uma vida em bem-estar emocional vivendo em guerra com todos, consigo mesmo e com a vida?

Para ativar essa força motriz dos Exercícios Comportamentais a pessoa precisa se conhecer melhor. Identificar o que a tira do sério, e o porquê. A partir daí, sobre esse aspecto trabalhar o aprimoramento de seu ser. Não basta ficar na I Força: A Dieta Emocional. É preciso exercitar o bom, belo e virtuoso, até que ele vá virando um outro jeito de ser, cultivando em nós novos hábitos. Têm alguns exercícios, nesse particular, muito bons para perda da “barriga da tristeza”, verdadeiros abdominais para saúde emocional. São eles:

a. Pratique a gentileza. Melhore o mundo em que habitas, e todos os dias.

b. Pratique a gratidão. Seja grato por tudo, e a todos que constituíram em ti, ser quem és.

c. Pratique recomeços. Quando alguém arrependido lhe convidar à paz, dê-lhe paz. Ou, que seja você que tome a iniciativa e restabeleça o fluxo para relacionamentos saudáveis.

d. Expanda a visão de si mesmo, dos outros e da realidade. Preste atenção aos aspectos positivos da vida: o bom, belo e virtuoso que estão em todo lugar e que teus olhos opacos, pela indiferença – filha da rotina, preocupações e ansiedade cotidianas, não lhes capacitam mais a ver.

e. Exercite a resiliência. Cuide para não superdosar a atribuição de significados ao que não sai de acordo com o que esperava, aos estresses e lutos existenciais. Nesses momentos, olhe-se dentro de um contexto de referência maior, proclamando e acreditando em profecias realizadoras tais como: “Já é hora de fechar as janelas, virar a página”; “Isso também passará”; “É só uma fase” e, “Amanhã será melhor”.

3. III Força Motriz - Saltos Disruptivos no Estilo de Vida

Tem gente que nunca está satisfeita. Com estilo de vida nada simples. Gente que carrega muitas tralhas emocionais. Como alcançar o bem-estar com um estilo de vida extremamente materialista, consumista, ganancioso, ambicioso e até violento? Como?

Gente que se perdeu nas coisas e coisificou o outro, a si mesmo e até a realidade em que vive. Gente escrava do ter e poder, e dependente de prazeres que após uma ressaca diluem-se e evaporam deixando-as mais vazias ainda. Tem gente que virou refém do outro. Gente co-dependente, sem liberdade e autonomia. Oprimida que foi, por tantos anos, acostumou-se com as gaiolas. E, em gaiola sendo, quer aprisionar a todos que lhe cercam no mundinho em que habitam. Vivem uma vida de mediocridade e aparências.

Muito da mudança para uma melhor qualidade de vida passa pelo estilo em como se vive. Mas não é pouca coisa não! É muita.

Tem gente que nunca tem paz, por mais promoções que receba. Está sempre entupida com dívidas das novas prestações: do carro do ano; da roupa transada, da viagem dos sonhos...etc. Gente que vive procurando a felicidade numa forma hedonista de ser, em alvos, que tão logo sejam alcançados já deixam em si – meses depois, o mesmo vazio de antes.

Gente que se alimenta do que realmente não importa, e ainda reclama de estar sempre com fome. Mas, há esperanças. Existem um montão de pessoas, e você pode até ser uma delas, que vem aprendendo que a vida é curta demais para ser pequena. Que existe coisa que dinheiro não compra. Que um estilo de vida mais simples e ligado às pessoas e grupos que realmente nos fazem bem é algo precioso, por si mesmo. Gente que reaprendeu a observar e encantar-se com a natureza. Gente que acolhe, que ajuda que influencia mudanças para melhor nos meios em que atua. A III Força Motriz do Bem-Estar é o Estilo de vida. Pode ser uma força positiva, que lhe impulsione ao alto; como também negativa, que lhe aprisione e lhe mova para os porões do ser.

Estilo de vida tem tudo a ver com nossas escolhas e renúncias. Tem a ver com nosso projeto de vida, senso de propósito e valores que cultivamos no aqui e agora dos tempos presentes. Nessa sociedade veloz e agressiva que vivemos, falar em mudança de estilo de vida é quase uma utopia. Convido-lhes a serem utópicos como eu. Bora juntos? Uma sociedade marcada por níveis crescentes de medicamentalização; ansiedade e estresse. Para a qual nem tudo, ou melhor muito pouco, a solução passará pelo traja preta e aspirinas. Na qual, todos os dias nos envenenamos um pouco mais com os hormônios da sobrevivência: cortisol e adrenalina. Uma sociedade hiper-conectada, mas solitária. Com acesso a possibilidades inimagináveis no passado, mas ansiosa.

Uma sociedade multicultural, mas que guerreia pela extrapolação do poder de seus guetos. Com mil formas de representação e identidade social, mas insegura e carente de atenção. Uma sociedade cujo o próprio estilo de vida produz dor, tristeza, destruição e morte. É para ser um mais revolucionário contra essa sociedade que lhe convido. Um utópico de um outro mundo possível. E por que não? Afinal, teve gente que mudou o estilo de vida, e para melhor, após um choque que passou: seja um luto laboral - ou existencial, um sofrer afetivo, ou até uma doença.

Mas, não precisa de tanto para mudar para um estilo de vida mais saudável, do ponto de vista de bem-estar emocional.

A educação emocional para a inteligência positiva, feita em várias partes do mundo, tem obtido sucesso e mostrado que podemos reaprender novos estilos de vida.

Mais comunitários, menos individualistas.

Mais solidários, menos egoístas.

Mais fraternos, menos violentos.

Mais naturais, menos materiais.

Podemos passar sem trocar de carro a cada dois anos. Podemos passar sem pintar a casa, a cada 5 anos. Podemos passar sem aquela viagem dos sonhos a cada X anos. Podemos passar sem as marcas. Podemos passar sem as coisas. Só não podemos passar sem nós mesmos, e as pessoas que amamos e conosco interagem.

Essas não têm preço. E serão elas – quanto tudo que o dinheiro compre não vier mais a comprar – como as lágrimas que choram por nós, quem de fato estarão ali pertinho a nos apoiar.

A simplicidade exige um pensamento complexo e um agir perigosamente contra a maré e ordem reinantes, desenvolva-os e seja mais feliz!

Lambuze-se comendo manga madura. Não tema sujar os dentes. Permita-se às experiências verdadeiras e prazerosas, justas e éticas - muitas de baixo custo. Carregue menos fardos emocionais, tome mais banho de chuva, tome mais sorvete e menos sopa, e reaprenda a brincar.

E, por último, abra seu livro de colorir - aquele de sua própria existência, e todos os dias acorde com o firme propósito de refazer seu melhor esboço, sua melhor ilustração de si mesmo, do outro e da realidade, com as tintas do bom, belo e virtuoso que produziu e recolheu durante o dia.