O Equilibrista

Assisti recentemente ao documentário Man on Wire (O Equilibrista), com direção do britânico James Marsh, que refaz a aventura de Phillipe Petit, artista/equilibrista francês que em agosto de 1974 andou por 45 minutos sobre um cabo de aço da Torre Sul à Torre Norte do World Trade Center, em Nova Iorque.

O documentário de 94 minutos “se equilibra” entre cenas memoráveis da época, em especial do processo de preparação do empreendimento/aventura, entrevistas recentes com os diversos envolvidos na façanha e reconstituições dramatizadas. O Equilibrista enaltece a grandeza do ato e exibe as notáveis habilidades do seu personagem.

Observando o desenrolar dos acontecimentos, não há como deixar de imaginá-los como uma metáfora do nascimento e formação de uma estratégia organizacional. Não nos esqueçamos que empreendedorismo e inovação são elos de uma mesma teia. Isso vale para as empresas, isso valeu para Petit.

É interessante observar na narrativa a coexistência de dois pontos de vista complementares para a realização de um feito. De um lado, o acalento de um sonho, a busca de um ideal de diferenciação, a ânsia em inovar, visando o reconhecimento e a individuação. Em outras palavras, a construção de uma identidade única que possa diferenciar e trazer reconhecimento e retorno (pessoal, financeiro, social etc.). De outro lado, a dura preparação, a rotina de percalços, o plano detalhado para fazer frente ao desafio e à busca da necessária qualificação.

Quando Petit se defronta pela primeira vez com seu objeto de desejo, acalentado por muito tempo, o resultado que se tem é o mesmo que o observado em muitas reuniões para definição de rumos e projetos estratégicos nas instituições: “Não dá!”, “É impossível e impraticável!”, “Vamos recuar!”.

Exatamente neste ponto surgem as diferenças entre uma aventura inconsequente e a busca de novas fronteiras de realização: a racional construção da viabilidade técnica, financeira, logística etc. por meio do planejamento.

Nisso o documentário mostra-se também didático. Todo sonho ou aspiração de um empreendimento, descritos formalmente ou não em uma estratégia organizacional, precisa se viabilizar. Por mais inovadora e factível, a ideia original requer planejamento sistemático, que parte da identificação de fatores restritores, da construção de parcerias, da definição de cronogramas e etapas, do acompanhamento de métricas de desempenho e da mobilização de pessoas, somente para citar alguns itens.

Assim como a vida de Petit dependia da qualidade de seu planejamento, a vida das empresas e instituições depende da consistência de seus objetivos, metas e ações, de seu planejamento para a ação.

O planejamento, em geral materializado por meio de uma ferramenta gerencial chamada de plano de negócios ou de plano de ações ou de plano operacional (ou outro nome que trate do mesmo objeto), é condição indispensável para concretização de um propósito transformador.

Ratifica-se, portanto, a percepção que o sucesso de uma estratégia se equilibra entre a inspiração, a criatividade, a inovação, o ineditismo de uma proposta, de um lado, e a métrica, o conhecimento técnico-gerencial e a qualidade da gestão, de outro. A inspiração e a transpiração, conforme a sabedoria convencional.

A proeza de Petit evidencia o quanto os grandes feitos e sucessos associam-se a uma ideia original e a um plano para concretizá-la.

Jose Gaspar Nayme Novelli é coordenador dos cursos de Gestão do Ibmec/DF.