Não ofendam os animais – a guerra civil na Síria

Foto: Dmitry Golovko

Quando o presidente da maior potência nuclear do mundo chama o presidente de uma potência regional de animal é um sinal que as coisas vão muito mal no planeta. Para piorar o cenário, o presidente animal é acusado de despejar armas químicas em seu povo e é apoiado por outra potência nuclear. Se a intenção de Trump, ao chamar Bashar al-Assad de animal, era acusá-lo de irracionalidade, os verdadeiros animais somos nós, humanos, que produzimos armas químicas e nucleares e travamos guerras sem sentido. No caso sírio, já são cerca de cinco milhões de refugiados e de 500 mil mortos.

A guerra civil síria originou-se em um levante pacífico, em 2011, contra o presidente cuja família (Assad) controla o país há algumas décadas e que foi duramente reprimido pelo ditador. O fato de a Síria ser uma ditadura, provavelmente, não teria, por si, gerado uma revolta. Afinal, a história da região não conhece a democracia, é uma história de um povo sujeito à opressão, seja do império bizantino, turco ou francês. Por outro lado, o desemprego, a corrupção e o poder das redes sociais certamente alimentaram a revolta popular na onda de uma série de revoltas que assolaram o Oriente Médio e o norte da África, naquele período, e que ficaram conhecidas como Primavera Árabe.

O que era uma guerra entre aqueles que eram contra e a favor de Assad transformou-se, ao longo dos anos, em um tabuleiro de xadrez envolvendo potências mundiais e regionais, além de diversos grupos como o Estado Islâmico, os Curdos e o Hesbollah, cada um deles com suas próprias agendas. Esses grupos e países acirraram o ódio religioso na Síria, colocando em campos opostos a minoria xiita alauíta, que governa o país, contra a maioria sunita. É difícil dizer quem não cometeu atrocidades ao longo dos anos de guerra.

Os principais apoiadores de Assad são a Rússia e o Irã. Aproveitando-se da omissão do presidente Obama, os russos aproveitaram para aumentar sua influência geopolítica a partir de 2015, ampliando suas bases militares. Os iranianos, por sua vez, buscando expandir o xiismo fortaleceram o Hesbollah. O apoio russo e iraniano tem sido fundamental para que o andamento da guerra favorecesse o governo.

Do outro lado, estão os Estados Unidos, a França, a Inglaterra, a Turquia, Arábia Saudita e Israel apoiando os rebeldes. O grau de apoio dos países ocidentais tem variado bastante, mas seu objetivo fundamental é atacar o Estado Islâmico. Acabam, portanto, adotando muitas vezes uma postura conivente em relação à Bashar al-Assad. A preocupação dos turcos é com os curdos que não se envolveram no conflito contra Assad e que buscam criar um Estado autônomo. A Arábia Saudita se envolveu para conter a influência iraniana. Israel, por sua vez, tem atacado posições do Hesbollah localizadas próximas às colinas do Golan.

Essa simplificação do tabuleiro de xadrez acima apresentada deixa claro que os peões são o próprio povo sírio. E como ocorre nesse jogo, jogado nos padrões da racionalidade instrumental humana, os peões são sempre os primeiros sacrificados. O certo é que não há sinal que o conflito chegue ao fim. Em sua última jogada, Assad desafiou os norte-americanos e foi acusado mais uma vez de utilizar armas químicas. A resposta ocidental se deu, por enquanto, na forma de mais uma bravata de Trump.

No atual cenário, o grande inimigo das potências ocidentais, o Estado Islâmico, parece derrotado. Ao mesmo tempo, a preocupação americana com a questão nuclear iraniana pode fazer com que Trump não queira gastar energia ou mesmo aprofundar a tensão com os russos na Síria. Bom para Assad, péssimo para os rebeldes. Mas isso é só uma previsão, pois os atores envolvidos podem tomar decisões diferentes buscando aumentar seu poder.

Certamente, os animais ficariam ofendidos de serem comparados aos humanos.

Foto: Dmitry Golovko

Renato Somberg Pfeffer
Doutor em Filosofia
Professor titular do Ibmec/MG