O Propósito na Estratégia Organizacional e o Mito de Sísifo

Por José Gaspar Nayme Novell, coordenador de pós-graduação do Ibmec/DF.

Na mitologia grega, Sísifo expressa o anti-herói. Ele é filho do rei Éolo, de Tessália, e Enarete, sendo considerado o mais astuto de todos os mortais; astúcia que o levou a provocar a ira dos deuses.

Sísifo era cheio de artimanhas, querendo levar vantagem nas situações que lhe trouxessem benefícios. De acordo com a tradição grega, Sísifo inflamou a fúria de Zeus quando sequestrou a jovem Égina, filha de Asopo.

Zeus mandou Tânato, o deus da morte, levá-lo ao mundo subterrâneo. Porém, Sísifo não negou sua natureza e enganou Tânato, a Morte, algumas vezes, escapando de seu destino.

Os ardis de Sísifo pareciam inesgotáveis. Reza a lenda que Sísifo morreu de velhice.

Zeus, porém, mantinha Sísifo em seu radar. Conforme ensina o antigo provérbio português “quando a esperteza é muita, vira bicho e come o dono”.

A extensa folha-corrida de Sísifo o condenou a um grande castigo: por toda a eternidade, rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha somente para vê-la descer montanha abaixo, invalidando completamente seu esforço. Assim se alcançaria a pior condenação: repetir um esforço indefinidamente.

O escritor franco-argelino Albert Camus escreveu um monumental ensaio sobre esse mito, descrevendo-o como uma metáfora para a condição humana moderna. No mundo do trabalho moderno, rotineiro e padronizado, estamos condenados a realizar enormes esforços sem clareza de sentido. Camus dizia que o analgésico para esta aflição encontra-se na consciência de que não estamos sozinhos em cumprir este trágico destino.

E o que o mito de Sísifo tem a ver com estratégia empresarial? Simples, sem um PROPÓSITO, a empresa ou instituição trabalha de forma repetitiva ou caótica, entregando algo distante da necessidade de seu cliente/usuário.

Podemos fazer uma analogia do “trabalho de Sísifo” para a “estratégia de Sísifo” quando consideramos o esforço extenuante, incansável, para produzir um planejamento estratégico fadado ao esquecimento ou que não leva a nada útil ou proveitoso, desprovido de efeitos e compromissos.

A “estratégia de Sísifo” se manifesta quando se detecta a inexistência de uma efetiva contribuição do valor proposto pela instituição/organização a seus clientes, usuários ou a sociedade.

Assumimos como premissa que o propósito é o SENTIDO DA EXISTÊNCIA. Você pode ter passos e medidas bem delimitados sem ter consciência de seu diferencial. Em outras palavras, pode ter um planejamento estratégico sem propósito. Sem propósito você não faz diferença para o cliente/usuário.

É mais fácil entendermos o conceito de propósito pela sua ausência. Quando a resposta para o porquê da existência de um negócio não é percebida pelo cliente, entenda como um sinal que seu negócio é igual aos demais. E um dos principais objetivos de uma estratégia é diferenciá-lo dos demais.

Sísifo simplesmente fazia. Seu objetivo era executar a tarefa, cumprir sua obrigação. O castigo de Sísifo é cruel por não permitir a diferenciação, o novo. A condenação maior de uma estratégia é repetir o passado, fazendo mais do mesmo.

Procure se lembrar do resultado de uma ação de sua empresa/instituição que lhe deixou orgulhoso de lá trabalhar, que lhe deu prazer pelo esforço e que você recordará com satisfação.

Se identificou este feito, você identificou o propósito. Se não, a estratégia não existe ou você não a reconhece.